sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

C.S.Lewis – Um Catedrático, Ficcionista e Cristão

Não sou de impregnar em um escritor e dizer que ele é um ídolo meu e muito menos que pretendo ser como o seu novo modelo na terra dos viventes. Creio que a cada um Deus criou de forma e conteúdo diferentes, por mais que em nosso nicho todos sejam escritores. Cada talento é diferente do outro, da mesma maneira que em um jogo de futebol os atacantes são distintos e todo mundo os identifica por seu talento.
Ainda que cada um seja essencialmente “um”, no momento que se lê um autor, certa parte de seu D.N.A. penetra nos olhos e faz impulsionar o leitor/escritor/aprendiz. É a esponja que suga seu detergente, e faz limpar as ideias de muita gente. Não queria rimar, mas é assim que vai ficar.
C. S. Lewis era um professor de Língua Inglesa, sendo um cátedra na Universidade de Oxford. Ele fora ateu até que caiu do cavalo, e como Paulo encontrou a Luz e nunca mais foi o mesmo. Então, tornou-se cristão, e como todo bom leitor, e podemos ver em muitas de suas escritas, a intertextualidade bíblica em “As Crônicas de Nárnia – O Sobrinho do Mago”. Aslam, uma palavra turca que significa “leão”, é a analogia de Jesus em Apocalipse, o “Leão da tribo de Judá”. Ele mesmo cria Nárnia com um “cântico novo” como se fosse novos céus e nova terra. Pode ser que Deus tenha criado céus e terras com um cântico, como quem cozinha e cantarola de alegria. Talvez Lewis tivesse assim pensado, e creio que ele acertou.
C. S. Lewis era catedrático, ficcionista, cristão, e abundou nessa tríade profissional. Uma não se liga na outra até hoje – O catedrático tem a tradição que não quer se confundir com a inovação (ficção fantástica) e muito menos tocar em coisas místicas como a vida cristã o é. O ficcionista quer e não quer dar a mão para o academicismo porque pode ser um chicoteamento intenso em sua liberdade, sendo para si uma adaga de dois gumes; e o cristão luta pela sua verdade revelada, exatamente ao contrário muitas vezes de um catedrático e o ficcionista. Mas, que coisa louca, C.S.Lewis fora as três coisas.

Não há limites para um ser. Desde que o ser esteja voltado ao seu Criador. Também sou cristã, sonho em ser mestre, e por prática também sou ficcionista. Nunca quero ser C.S.Lewis, contudo sigo o seu exemplo, não de ser uma V.H.Gefali, mas que  eu posso tudo naquele que pode tudo em mim.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Como Kerouac ou Qualquer Outro Escritor

Eu não li nenhum livro de Jack Kerouac tampouco lerei. Vi de curiosa o filme de Walter Salles “On the Road” e concluímos eu e minha Irmã que a história era horrível. Mas, como das piores coisas eu olho além do visível, eu enxerguei naquele alter ego do filme a prazerosa fase dos materiais necessários para um escritor construir a sua obra.
Era um menino sem experiência alguma de vida que de repente se encontra numa jornada louca pela América para chegar à louca San Francisco – Califórnia, com um rapaz libertino e sua esposa jovem e pervertida. Usam diversos tipos de entorpecentes, encontram nisso experiências malucas que as drogas dão, e vivem de maneira dissoluta.
Ao ter todos os insumos, depois de um tempo de pesquisas e insights, anotações feitas com tocos de lápis e papéis como aqueles de pão de padaria, tranca-se o jovem escritor num quarto, e lá começa a escrever toda aquela experiência registrada. E, enfim, o livro finalmente é escrito.
Na vida de escritor é assim. Nesse ínterim desse ensaio, eu estou escrevendo minha primeira trilogia ficcional de batalha espiritual e profético. Todas as pesquisas durante esses treze anos pensando no que escrever, na verdade, favoreceram o tempo atual. Veja que a pesquisa de uma obra a ser escrita pode ser de longo prazo. Miguel de Sousa Tavares escreveu “Rio das Flores” em três anos. Para quem leu essa obra, sabe que está entrelaçada com a história de Portugal antes, durante e depois da segunda guerra mundial, e também com elementos da história interessantes demais, que só pesquisando os pormenores, ele pôde, creio, concluir a sua obra.
Há etapas para se fazer um bom, aliás, um ótimo livro. Um escritor nunca pode pensar no “está bom”, mas ele sempre tem que pensar no fim de tudo que “está excelente”. Se não existir animo que o faça balançar dentro dele, então o livro é uma verdadeira obra que arde, digno de fogueira. Isso para o término do trabalho, mas dentro do seu andamento, e entenda, ele deve ser construído com muito esmero, pois pode ser a obra de sua vida.
Aquele ânimo final do personagem alter ego de Jack Kerouac é o animo da Eureca necessária para se fazer uma obra. Enquanto isso não existir, apenas esboce, e esboce, reserve, deixe de molho, e, à medida do tempo, volte a pensar ao poucos. Querendo ou não, sabemos, por um extinto de escritor, que aquela obra finalmente pode ser escrita.
Bom, isso é uma definição, e eu acredito nela. Estou nessa fase. Você quer que o mundo cale a boca, a televisão, as redes sociais, os barulhos dos pagodes externos, as balbúrdias internas, os amigos, os conflitos... Tudo. Quando tudo se cala, a obra começa a ficar apurada, como um doceiro fazendo doce de amendoim. Tudo é um processo lento, detalhado, há um sabor do momento da quietude do leite no fogo cheio de açúcar que não pode parar de ser mexido com a colher de pau por horas e horas até que o leite se apegue firmemente no açúcar e fique com uma consistência “puxa”. Aquele chiclete é um sinal claro que é o momento de colocar o amendoim tostado e moído. Desliga-se o fogo, tudo é misturado rapidamente, e, à medida do olho, vê se há amendoim de mais ou de menos na mistura. E, finalmente, toda aquela massa é jogada na mesa de mármore, quente, fervendo, sendo esticada para os cantos, a fim de que se esfrie e possa corta-la em tabletes para todo o povo comer.
Assim é a obra de um escritor. Kerouac fez doce de cidra e não sabia.

V.H.Gefali